Virtual Memories

terça-feira, 21 de novembro de 2017


Do hábito e das insígnias dos santos doutores da Misericórdia da Bahia


Imagens sacras em madeira esculpida, estofada e policromada dos santos doutores São Cosme e São Damião, segundo explícita gramática barroca do século XVIII, altar-mor da igreja da irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Salvador da Bahia, Brasil.
Graciosas e muito raras esculturas do universo lusófono, emprestam aos santos doutores os hábitos e insígnias corporativas da Universidade de Coimbra.
Ambos os santos vestem hábito talar de abatina, composto por colete comprido, abatina e capa. A abatina é do tipo redingote, embainhada pelos joelhos, com carcela ornamental frontal caseada e com botões forrados, sendo visíveis os canhões de mangas orlados de botões. Nos acessórios, identificamos bengala, sapatos pretos de pele guarnecidos de fivelas de prata, meias altas pretas, calções e possível plastron à francesa. Uma figuração bastante curiosa, pois a etiqueta universitária preceituava o uso de cabeção entre o colete e a camisa branca e volta branca. Igualmente curiosa parece ser a presença de capa curta num dos doutores, e de capa talar enrolada no braço esquerda de outro dos doutores. As insígnias doutorais estão conformes com a borla e capelo da Universidade de Coimbra, insígnias que na mesma época eram bastante semelhantes às de algumas universidades espanholas da Península Ibérica e da América Latina (México, Lima, entre outras). Os santos exibem sobre os ombros o capelo, uma murça dupla, munida de capuz dorsal e jogos de rosáceas de seda e alamares, em cetim e seda amarela, a cor distintiva das ciências médicas. Sobre as cabeças dos santos vislumbramos as borlas, quer dizer, barretes pretos ornamentados com franjas longas de seda amarela e florões aparafusados nas copas. Estes florões, que em Coimbra se chamam pegas, são semelhantes às borlas dos cortinados, e armavam com bolbos de madeira feitos num torno de carpinteiro, que se forravam com fio de seda e encaixavam uns nos outros, levando no interior um comprido parafuso.
Estas insígnias eram conhecidas no Brasil, território para onde eram levadas por eclesiásticos e funcionários da coroa que tinham obtido graduação na Universidade de Coimbra. Quando foram criadas as primeiras faculdades de Direito nos anos seguintes à independência, essas escolas também adotaram as insígnias no estilo de Coimbra.

Fotografias digitais de Liana Mascarenhas, acessora de imprensa da SCMSB, a quem agradecemos.



As referidas insígnias como na realidade são.



Reunião de antigos alunos da Universidade de Sherbrook, Canadá, em 2007.
Toga preta com aquilo que parece ser uma muito duvidosa ou lá o que quer que isso seja insígnia para bacharéis, em cetim amarelo e verde.


Universidade Católica de Lyon

 Reitor e decanos num cortejo fúnebre, 27.05.1911
Uso de toga e insígnias, notando-se cabeças cobertas e desbarretadas.

Reitor e decanos, precedidos por oficial à civil, 1912.
Entre a segunda metade do século XIX e os inícios do século XX algumas universidades católicas francesas como Lyon e Lille mantiveram os hábitos romanos em uso entre os representantes dos órgãos de direção e membros do corpo docente com dignidade eclesiástica. Trata-se efetivamente de uma tradição universitária europeia, com expressão em universidades americanas, segundo a qual as vestes eclesiásticas masculinas e femininas são para todos os efeitos equivalentes às académicas estatutárias. Nas universidades ibéricas, o uso do hábito eclesiástico secular ou regular admitia exceções em matéria de insígnias. Por desconhecimento da etiqueta universitária europeia plurissecular, esta situação tem sido repetidamente omitida nos chamados códigos "de praxe" ou até proibida "contra legem". Como é sabido, cada tempo tem as suas legitimidades e as suas razões.


Trajes e insígnias da primeira universidade estabelecida na Lorraine
(1572-1768)


Cartaz da exposição instalada na Abbaye des Prémontrés, 18/10 a 05/12 de 2012.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


Um enigma quinhentista sobre o hábito estudantil

Decifração de um enigma escrito em 1578 por A. Luís da Cruz, do Real Colégio das Artes, então escola menor de Filosofia, Línguas, Ciências Naturais, Matemática e Físico-Química, cuja cor distintiva era o azul ferrete, onde também vigorava o normativo estatutário do porte do hábito talar corporativo diário.
Este enigma, escrito em latim, por um membro da Companhia de Jesus, foi encontrado nos fundos da Biblioteca da UC e traduzido pelo lente de Medicina, investigador e militante republicano Joaquim Teixeira de Carvalho. Não obstante o rigor que assiste aos trabalhos de arqueologia, arte, cerâmica e indumentária de Joaquim Teixeira de Carvalho, o certo é que nos anos de fim da monarquia constitucional as elites universitárias anticlericais estavam erradamente convencidas de que o traje académico de capa e abatina (melhor dito, de gorra, mantéu e abatina) descendia diretamente do então muito odiado hábito talar da Companhia de Jesus, constituído por barrete preto de quatro cristas, mantéu talar de colarinho simples e roupeta de um corpo munida de carcela entre o pescoço e o diafragma. Daí que ao longo de todo o artigo o ilustre mestre traduza erradamente a cobertura de cabeça por carapuça e não por gorro e abatina por roupeta. Quim Martins aproveita o ensejo para zurzir na cultura jesuítica que na senda da Ilustração era considerada responsável pelo atraso científico e cultural de Portugal. É curioso que hesite na questão dos calções masculinos e dos calçotes ou bragas. A questão parece-nos relativamente clara de dilucidar. Calções eram a veste externa de cobertura das nádegas e coxas, metendo-se por dentro delas as bragas ou cueca-calção, e para os pés e pernas as calças, quer dizer, as meias altas que se fixavam com ligas pouco confortáveis. Sobre a questão da higiene, não eram apenas os jesuítas que não tomavam banho diário nem lavavam as vestes com regularidade. O banho de corpo inteiro ou geral era ao sábado, numa tina, quanto ao resto lavavam-se rostos, mãos e pés. A roupa era lavada de tempos a tempos para não desbotar nem desgastar a malha nas pedras e lavadouros ásperos. Os membros de diversas corporações faziam gala na exibição de roupas pingadas, avinhadas, com buracos e rasgões. Para enfrentar verão e inverno, chuvadas, lama e epidemias de pulgas, não havia uma roupa mas sim enxovais. Os enxovais dos clérigos e estudantes englobavam roupas de verão e de inverno, roupas de trazer dentro de casa e acessórios variados como regalos, luvas, bengalas, polainas, cabeleiras postiças e laçarotes para as ditas cabeleiras.
A abatina é uma veste de finais do século XVII, que sucedeu à soutanella quinhentista, usada por académicos e eclesiásticos em Itália, França, Portugal, Grã-Bretanha e seus domínios e Suécia. Caiu em desuso na corte Francesa após a Revolução de 1789, tendo-se mantido na corte pontifícia até à década de 1850, altura em que foi substituída pelo abito piano. Em Portugal, o traje de abatina foi um dos uniformes do Real Colégio dos Nobres (Lisboa), tendo sido usado como hábito alternativo por lentes e estudantes da UC. Nos inícios do século XIX, entre as invasões napoleónicas e o rescaldo da Revolução de 1820, este traje ter-se-á generalizado entre a Academia progressista, liberal e anticlerical, substituindo as antigas vestes ibéricas à base de loba e mantéu, num processo que com alguns anos de diferença marcou a Universidade de Salamanca e diversas universidades e colégios da América Latina.
Este tipo de enigmas não era específico da cultura universitária. Na cultura popular oral sobreviveram adivinhas do género «Qual é a coisa, qual é ela, que mal se mete em casa se põe à janela?», sendo coisa a carcela, casa o rasgo para a entrada do botão e janela os botões à vista.

Eis o que JPBaeta escavou:

Joaquim Teixeira de Carvalho (Quim Martins), jornal Resistência, 18.08.1904, «PICTURA», na crónica Bric-a-Brac


BRIC-A-BRAC

A BATINA

I

A batina só tarde começou a ser tema favorito de canções académicas.

A poesia da sebenta e da cábula apareceu muito mais cedo.

A beleza da capa rota e velhinha, a sua peregrinação lírica pelas noites luarentas é coisa relativamente moderna.

Vai o relativamente para nos darmos o ar de alegre velhice que convém a esta secção.

A poesia da capa e batina é do nosso tempo.

A sua dignidade não. Essa era já afirmada em frase de efeito quando viemos para aqui estudar.

A dignidade da capa e batina, como usa dizer-se, e a soberania da academia eram, quando aqui comecei a estudar, o primeiro artigo do código das assembleias gerais dos estudantes.

Á frases que envelhecem, estas, que devem ser da mesma idade, tem hoje o mesmo sabor antigo.

Não á com o mesmo efeito determinante para estudantes de Coimbra senão outra — a academia generosa ??

Esta ultima tem tanto de terna comoção como de arrebatamento.

Mas voltemos ao assunto.

Os primeiros versos que conheço á batina, são, os de um enigma, afixado no colégio das Artes de Coimbra em 1578 e feito pelo padre Luis da Cruz poeta dramático da companhia.

Julgamo-los os primeiros, visto a roupeta e mantéu jesuíta serem os antepassados da batina.

O documento que publicamos é um verdadeiro diploma heráldico.

Estes enigmas eram afixados no colégio por ocasião das festas escolares.

Encontrei-a no tomo 2.º da coleção das obras feitas pelos jesuítas para as festas escolares do colégio de Jesus em Coimbra.

Desta coleção, não encontrámos outro volume, alem do quinto, nos manuscritos da Biblioteca da Universidade.

O tomo 2.º, em que vem o enigma, tem 482 folhas, numeradas no reto (sic), a partir da terceira que contém o frontispício desenhado a preto e vermelho.

O titulo está inscrito num retângulo, em caracteres góticos e é encimado por uma oval com a palavra Jesus no centro, circundada da divisa: IN NOMINE IESV OMNE GENV FLECTATVR, escrita em caracteres latinos e a tinta vermelha.

O titulo do manuscrito, em letra gótica é: «Resu Scholastica | rú, quae à patrib ac | fratritb huius Conim |bricensis Collegii scrip | ta sant. | Tomos 2».

O capricho caligráfico que circunda o titulo é de uma arte primitiva e ingénua.



PICTURA

Vir faemina q cum una altera q breuis corporis puella

ante limina aedium picti uesebantur. Ad aedium fenestras

aderant roseta, rosis adhuc nõ erumpetib e folljculis



Significatio



Manteo,                 roupeta.              Carapuça





1 Nympha - / - roupeta
nubit uiro -/- manteo

2 Sine capitib ambo porq
magistri -/- os alfaiates
não lhes cortarão

3 ora &c por q o mãteo tudo
e costas

4 ille &c. ou e de colla
riuho ou de raia

5 vagina tem bainhas porq
são abainhadus

6 todos trazé a roupeta
iusta e não regulada
los statutos

7 Coniujis &. do manteo
se pode fazer roupeta
mas não da roupeta mãteo

8 Ex fam. a carapuca
preta è pêra fora, a
branca p. casa

9 a branca e cara adde
puça. e té hu olho

10 o Nunc fedes &c, casas
da roupeta as quais fazé
phrygiones .1. botoeiros

11 ocul. porq as casas tê
pestanas

12 nas casas não êntrão
senão claui -I- botões

13 as casas serve as rosas
q naõ abrirão, porq en
taõ saõ botões.
Nympha uiro nubit, qui mobilioris amore
Aduersi comitem temporis u q fugit:

Nec caput est illis, quia non secuere tmgistri
Si sedet ília, maio carpitur ille suo:

Ora uir abscondit, latíssima terga renudat
Terga tegit mulier, pectora nuda gerit;

Ille uel est soboles Torquati antiqua latiní:
Aut a Neptuno, uel Phaetonte uenit.

Vaginas quid agunt? Si poritis arma Togati ?
Quam iuuenes prodest, tam nocet esse senes »

Est modo qua uiuit nemo non iustior, exlex
Multaq iudiciis fanda nefanda tegit.

Coniugis ille suae, non illa in fata mariii
Ire potest, fieri dextera 'ae ia potest

Ex famulis foris atra, domi sedet candida uiuit
Vtraq temporibus quam tamê apta suis

Alba oculo cara est, labris et crinibus atra
Carior a domino si quoque missa manu est:

Nunc fedes Phrygio positas meditare labore
Qao Caeta loco nunc prope nomen habet:

Possidet has mulier oculorum nobíle setis
Mentita argentum bractea fundat opus.

Vis aedes intrare ? Sinet non ianua, clavis
Innumeris quando clausa, reclusa manet,

Stet sedes potius uarijis seruata rosetis
Non dum purpureas explicuere comas.



A Pe Ludovico da Cruz
anno 1578.


Si sedit. o manteo se safa


Tergategit, da roupeta o peito apa
rece.


Quã iunenes &c, nouos q uelhos milhor é seré


Multa &c. pôrq encobre calças das
quais hflmas são para ver e outras
não.

Fieri &c. podese uirar a roupeta
do aueso pera o direito.


Vtraq. cada hua e conforme a
cabeça de seu dono


labris & crin. a preta q é de frisa
e maist cara q e forrada


Quo cae , bajeta .fazesé as casas é


Mentita. porq as casas fazese
cõ hua palheta de frandes.


Innumeris a q tem botões eta por diante.


Os versos eram acompanhados de pinturas.

A pintura deste representava um homem, uma mulher e uma rapariga diante dum edifício a cujas janelas se viam rosas em botão.

O homem era o mantéu, a mulher a roupeta e a rapariga a carapuça.

Às janelas estavam os botões; porque nas casas da batina é que eles se mostram.

Se o leitor sabe latim, e lhe sobra paciência e vagar, facilmente descobrirá a decifração do enigma, ajudando-se das notas marginais do manuscrito.

Por o seu contexto poderá avaliar da argúcia do bom Luís da Cruz que foi autor de tragicomédias famosas.

Foi ele o encarregado de fazer a tragicomédia de Sedecias para delícias de el-rei D. Sebastião, na sua visita a Coimbra, em despique com os talentos dramáticos dos professores estrangeiros do colégio das artes.

As suas obras dramáticas andam em livro, hoje raro, com um prólogo curioso em latim.

Deixemos porém a erudição.

É para notar que a alteração da batina regulamentar é vício tradicional.

Já os Jesuítas usavam a batina mais apertada do que mandavam os estatutos.

É também para notar que no estatuto, falando-se da roupa que se deve mandar lavar, se cita do uniforme apenas a carapuça.

O mantéu e a roupeta nunca viam água.

Tal qual a batina hoje.

Quando não chove...

O enigma referindo-se aos calções fala nuns que são para ver e outros que o não são.

Querer-se-á referir ao abuso de calções de cor, ou fazenda contra o estatuto, ou referir-se-á a roupas brancas numa frase de espirito de sacristia?

Os enigmas, que se punham pouco antes, ou pouco depois do S. João, eram afixados por ocasião do elogio á rainha Santa e a D. João III.

O assunto era, como se vê dos manuscritos conservados na biblioteca da Universidade, muito variado, abrangendo objetos profanos, e casos da vida politica.

Alguns são interessantes para a história dos costumes, ou pela descrição de monumentos desaparecidos.

Esta literatura especial nunca foi estudada, bem como a das outras produções literárias escolares.


In jornal “Resistência” n.º 928 (10.º Ano) de 18 de agosto de 1904


Bibliografia

Sobre o Padre Luís da Cruz (1543?-1604)


Padre jesuíta com hábito talar ordinário de trazer por casa: roupeta talar de um corpo, em lã tingida de preto, com cinto simples e barrete. Como era próprio da maioria das vestes talares masculinas para eclesiásticos, jurisconsultos e académicos, vestia-se e despia-se pela cabeça. Para se poder fazer tal, tinha de ser uma túnica largueirona, de corte trapezoidal, com carcela frontal metida entre a base do pescoço e a linha do diafragma. Dentro de casa era usada com capas e capotes. Na missa, como veste de baixo, sobre ela se sobrepondo alvas, sobrepelizes, casulas e estolas. Fora de casa e em missão, completava-se com capa preta de colarinho, sem colarinho e com sombreiro. O cinto podia ser de pano ou de couro, nele se fixando os rosários.
A roupeta nada tem que ver com a morfologia das abatinas. Pertence sim à família das sotainas de um corpo e togas. São aliás vestes de épocas bem distintas. A roupeta vem do século dos meados do século XVI, a abatina vem das décadas de 1760-1790. Ao contrário da sotaina romana que tem feitios metidos no saio traseiro (3 machos), a roupeta levava o feitio de costas inteiramente liso.

Traje de abatina, sobrecacasa preta pelo joelhou ou cortada ligeiramente abaixo do joelho, inspirada na túnica persa masculina, divulgada nas cortes de Versalhes e de Londres a partir da década de 1760. Usava-se com uma capa preta, também de seda, variando a altura da bainha entre o talão (Coimbra), a meia perna, a linha do joelho, ou vestindo-se mesmo sem capa alguma (Grã-Bretanha, Suécia). Podia se na cor da dignidade ou avivada.


Uma figuração do dito traje, com insígnias doutorais de Medicina, nas imagens de São Cosme e São Damião, altar-mor da igreja da santa casa da Misericórdia da Bahia, Brasil, século XVIII.

A variante anglo-saxónica com meias altas, polainas, sotaina assertoada e sobrecasaca com carcela até à cintura. Retrato do bispo de Ontário, John Travers Lewis, ca. 1862, acervo do Musée MacCord. Usa-se de ordinário com a carcela desabotoada - no que os clérigos britânicos se adiantaram em mais de meio século aos estudantes da UC que só em 1907 começaram a generalizar esta usança - , com cartola alta e sem capa.

A variante anglo-saxónica, vista dianteira.

Variante feminina, cintada e com os botões forrados, Suécia, em uso entre o clero católico e lentes da Fac. de Teologia da Univ. de Upsala.

Versão romana cardinalícia, com vivos nas bainhas. Em uso entre o século XVIII e inícios da década de 1860.

O traje de abatina, neste caso substituindo-se o ferraioleto pelo balandrau curto. Cardeal romano, inícios do século XVIII.

Sobrevivências do balandrau sobre a batina talar. Trata-se de um misto de casacão com capote, que se fechava na frente com alamares, podendo vestir-se pelas mangas ou deitar-se pelos ombros e deixar as mangas a adejar. Fotografia captada nos USA, século XX.

sábado, 18 de novembro de 2017



Indumentária de estudante seminarista, México, década de 1820. Traje de "manto" talar ou loba de dois corpos sobreprostos, beca de pontas longas e barrete. Traje de loba cerrada comum a universidades, colégios e seminários católicos da Península Ibérica e da América Latina entre o século XVI-1º quartel do século XIX, sendo até ao momento desconhecidos quaisquer exemplares musealizados.
Gravura publicada em Costumes et moeurs de Méxique, London, Claudio Linati, 1828.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017



Plano de pormenor do retrato de Rodrigo Maldonado, doutor em Direito Canónico e lente pela USAL, que se radicou no México e trabalhou no Colégio de Santa Maria de Todos os Santos. Obra do século XVII, coleção do Museo del Virreinato, digitalizado na Mediateca INAH/México.
Enverga toga preta talar com punhos, colarinho de canudos e luvas. Sobre mesa anexa, beca amarela (?) do Colégio de Santa Maria e barrete de graduado. Trata-se de um chapéu civil da época de D. Filipe II, preto, armado com estofo, pele e seda ou veludo, com ilharga canelada, sobre cuja copa se assentou uma longa franja de seda verde e um florão (pega) central. Na mesma época os lentes graduados de Alcalá de Henares chegaram a usar, em alternativa ao barrete, um sombreiro preto com borla de seda, mas sem pega. Esta variante usada em Salamanca entre a segunda metade do século XVI e os inícios do século XVII ainda não era conhecida, sendo muito notórias as semelhanças com os chapéus dos altos dignitários da China e do Tibete.






Coberturas de cabeça de graduados na Univ. de Alcalà de Henares/Complutense (séculos XVI/XVII): barrete preto de quatro cristas com borla central e laurea franjada na cor científica, ainda sem o florão de madeira (bonete de cuatro picos); variante para lentes de Leis e Cânones, sombreio preto de aba larga com borla franjada de seda aplicada na copa.

terça-feira, 8 de agosto de 2017


Abafos próprios do hábito talar em estilo romano

Nos países católicos mais diretamente influenciados pelo código vestimentário da corte pontífica romana, os abafos próprios para completar as vestes talares eram as capas talares (ferraiolo, ferraiolone) e os capotes (tabarro). A primeira era uma capa talar de bom pano como a seda, comportando um corpo central que se plissava na costura do cabeção, duas gigantescas bandas dianteiras que se dobravam na vertical à direita e à esquerda, e uma gola cartonada e forrada do mesmo pano, conhecida por cabeção. A segunda era um capote, normalmente usado no inverno e como abafo de viagem, cujo corpo central cobria o corpo até aos calcanhares, fechando sobre o peito com um ou mais alamares de boa passamanaria, comportando uma murça entre os ombros e a linha dos cotovelos, e levando em torno do colarinho uma pequena golinha em veludo preto.
Um e outro foram usados em Portugal, confecionados por alfaiates que nem sempre tinham o requinte das alfaiatarias romanas. Na segunda metade do século XIX estes dois adereços foram por vezes substituídos por dois outros, o casacão assertoado à francesa (dito redingote) e o balandrau. Este último era uma túnica talar, de corpo amplo, comportando mangas e murça, avivado conforme o dignitário, e abotoando com alamares. Pelas imagens a que acedemos, o balandrau à portuguesa era ligeiramente menos complexo do que o espanhol especialmente no feitio da murça.

Galeria de imagens da capa de feitio italiano:
(na última imagem, Lizst com batina talar singela e capa de talhe simples)






Retrato do bispo de Viseu, D. António Alves Martins (1808-1882), com batina talar e balandrau de corte simplificado. O abafo distingue-se perfeitamente da batina. Sobre a mesa, a borla de Teologia, láurea obtida na FT/UC. Ficam dúvidas se seria em pano preto avivado a verde. Tudo indica que sim.

Imagens seguintes: indumentária do enxoval eclesiástico secular espanhol cujo uso se prolongou pela primeira metade do século XX, publicada in Ceremonia y Rubrica, http://liturgia.mforos.com/


Balandrau/balandran de um corpo talar em tecido preto, munido de carcela vertical frontal com caseado e botões planos forrados, mangas com pequeno canhão e murça de ombros. Em plano invisível, pela linha dos flancos, leva dois bolsos falsos. As bainhas são rematadas por pespontados à máquina e vivos pretos de cordãozinho de seda. A veste por debaixo do balandrau é uma batina talar.

A seguir, agasalhos comuns entre o clero secular católico europeu no século XIX e nos inícios do século XX. Espanha: batina com redingote/duleta/douillette (casacão assertoado à francesa) e batina com balandrau/baladran à espanhola, com vivos e murça gomada. O balandrau podia trazer-se vestido com os braços enfiados nas mangas ou deitado apenas pelos ombros com as mangas pendentes.


Um redingote monocromático de confeção recente, em preto integral, com gola de veludo (cf. duleta/douillette). O jogo de botões é de massa, sendo os clássicos forrados de tecido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017



O traje de abade de As Pupilas do Senhor Reitor (1935)
Indumentária civil masculina de abade, Portugal, 2ª metade do século XIX, recriação do guarda-roupa para a figura do abade no filme As pupilas do Senhor Reitor (1935), de José Leitão de Barros, baseado no romance homónimo de Júlio Dinis (1866), cuja ação decorre entre Ovar e Vila Nova de Gaia. O filme, inscrito na política do espírito do Estado Novo, procura reproduzir um ambiente campesino e bucólico assente na produção de tipos humanos idealizados. Algumas cenas deste filme foram introduzidas forçadamente pelo realizador, caso dos trechos iniciais filmados na Universidade de Coimbra e caso das vindimas nas arribas do rio Douro.
O senhor abade veste o chamado traje de rua/de viagem/hábito civil de viagem, que contém alguns elementos comuns aos usados no resto da Europa nas décadas de 1850-1860 como a sobrecasaca preta com corte de redingote, embainhada quase pela meia perna, com abotoadura de trespasse, machos posteriores e botões planos forrados de tecido. Elementos eclesiásticos propriamente ditos nesta indumentária sinalizamos apenas a volta branca em torno do pescoço e por debaixo do colete o cabeção preto de duas abas. O colete preto, com carcela alta, o chapéu de feltro, a bengala, as botas de couro preto e as calças compridas são peças da indumentária civil. Pela etiqueta britânica, uma veste deste tipo era considerada apropriada para sair de casa entre o entardecer e a noite.
As peças da indumentária civil masculina, de tecido liso, sem bordados, foram sendo lentamente introduzidas no enxoval eclesiástico a partir da Revolução Francesa de 1789 e da Concordata firmada entre o regime napoleónico e a Santa Sé (1804). Com efeito, a corte francesa de antigo regime admitia na etiqueta palaciana o traje de abade ou hábito curto, com sobrecasaca, capa curta, tricórnio de feltro, solidéu, calções, meias altas e colete, traje que também era admitido na corte pontifícia romana, nos palácios episcopais anglo-saxónicos, entre os alunos do Real Colégio dos Nobres (Portugal) e até na Universidade de Coimbra como hábito substitutivo da velha loba talar que Deus tenha e que me levou quase trinta anos a descobrir ao pormenor como era.
Nas décadas de 1850-1860, os contributos do enxoval eclesiástico à francesa começaram a fazer moda e a causar escândalo na corte pontifícia romana. Em vez do grande tricórnio preto de feltro, um chapelinho de castorina, de aba redonda, chamado saturno. No lugar da antiga capa/matéu talar, um casacão à militar, de trespasse, com a bainha pelos calcanhares. Este figurino parecia menos clerical e permitia conferir um certo ar paisano aos padres italianos que tomados de pavor assistiam ao avanço das tropas de Garibaldi e à ocupação dos Estados Apostólicos. Procurando acompanhar os tempos, o próprio pontífice romano regulou a etiqueta palaciana, dispondo que o clássico hábito curto à la française fosse substituído pela chamarra romana. Ora vem ao caso que a chamarra é uma batina talar de um só corpo, rigidamente confecionada na máquina de costura, geometrizada, com as famosas sobremangas entre a costura de ombros e os cotovelos, vistosos canhões nas bocamangas, vivos em preto ou nas cores dos dignitários e, no lugar da capa talar, uma capinha de ombros, de tirar e por, conhecida por murça ou romeira. A etiqueta lançada por Pio IX procurou espelhar a uniformização da Igreja em tempos de laicização e a autoridade do pontífice. A pouco e pouco a nova batina romana ou simarra espalhou-se pelos países católicos, graças à ação e autoridade dos bispos, alastrando também aos alunos dos seminários católicos.
Em Portugal, Espanha e países da América Latina, as antigas vestes eclesiásticas e adereços subsistiram até finais do século XIX, tendo sido algumas raras vezes fotografados ou desenhados. Desapareceriam sem ser musealizados, vazio que hoje cria sérios problemas aos investigadores.
Voltando ao traje do abade recriado no filme As Pupilas do Senhor Reitor, no geral os elementos indumentários trajados pelo ator estão historicamente corretos, exceto as calças compridas. Os clérigos católicos seculares, mesmo quando residentes em espaços vincadamente rurais como os descritos por Júlio Dinis, estavam obrigados a obedecer a disposições dos seus bispos diocesanos. Botas de couro de cano alto até poderiam calçar para ir à caça, cavalgar muar com chuço aberto, tratar das colmeias ou viajar. O que não podiam vestir nem tampouco era aceite num clérigo eram calças compridas, tendo permanecido até à Revolução de 5.10.1910 a etiqueta das meias altas pretas de seda com calções pelos joelhos.

Ver o filme: 

segunda-feira, 29 de maio de 2017



Muito raro exemplar do barrete francês usado por académicos, bedeis e pastores protestantes

Toque/coiffe/barrete de doutor, com variantes usadas no século XVIII por pastores protestantes e bedeis paroquiais. Formato troncónico em veludo ou lã entretelada, subdividido em seis faces, com grande borla de seda na cor institucional.
Proveniência: exemplar existente no acervo do Musée du Desert/Mialet, datado do século XVIII, dado como pertencente a pastor protestante. Fotografia disponível em Musée Virtuel du Protestantisme.

sábado, 27 de maio de 2017


Indumentária de bedel paroquial, de figurino pré-napoleónico, composta por toga, barrete agaloado e vara do ofício.
Postais circulados em França nos inícios do século XX.



domingo, 14 de maio de 2017



Imagem sacra de Santa Catalina de Siena, doutora da Igreja Católica, com barrete doutoral de Teologia, Espanha, monastério de Santa Maria Real, Sevilha.

domingo, 26 de março de 2017



Correio dos leitores

Ana Brito deixou um novo comentário na sua mensagem "Estatueta de Afonso Costa (1915)":

Bom dia! Poderia informar-me sobre as dimensões desta peça? Agradeço antecipadamente.
Com os meus cumprimentos
Ana Brito

 Não dispomos de elementos para responder a esta pergunta. É admissível que andasse entre os 15 e os 20cm de altura.

sábado, 14 de janeiro de 2017


Uma crónica do médico Ricardo Jorge sobre a «Capa e batina» (1934)

Ricardo de Almeida Jorge (1858-1939) era diplomado pela Escola Médico-Cirurgica do Porto (1879).
Os alunos deste tipo de estabelecimentos de ensino não usavam uniforme, ao contrário dos estudantes das grandes escolas politécnicas francesas que tinham farda de gala de inspiração militar.
Replicando a opinião comungada por vultos da sua geração, caso de José Leite de Vasconcelos, Ricardo Jorge não vê sentido na continuidade do uso da capa e batina após a revolução republicana de 1910 ou mesmo da sua generalização facultativa aos estabelecimentos de ensino médio e superior portugueses.

Fonte: Diário de Notícias, 24.12.1934
Enviado por J. Baeta


Uma curiosa quadra popular

O meu amor é estudante
Usa bata e batina
Quando vai para o liceu
Sempre diz: "adeus menina"!
(recolhida em Vila Velha de Ródão)

sábado, 31 de dezembro de 2016


Garrett, BD e imaginosa indumentária

Duas de três vinhetas insertas no álbum BD de José Ruy - Almeida Garrett e a cidade invicta, Lisboa, Âncora Editora, 1999.
Vinheta 1, em cima, pág. 7: ano letivo de 1816, [João Baptista da Silva Leitão de] Almeida Garrett (Porto, 1799; Lisboa, 1854) matricula-se na Faculdade de Leis da UC. Tertúlia informal de escolares no paço das escolas, nas imediações da Via Latina. Traje corporativo apenas esboçado em tosco, com mantéus excessivamente curtos, incorreta figuração de calças compridas e de livros na mão esquerda, acrescida de tendência para fixar uma uniformidade vestimentária ainda inexistente. Mesmo tipo de abordagem na página 8, à entrada da porta férrea.
Vinheta 2, em baixo, pág. 9: após participação da revolução liberal de 1820, em 1821 Garrett forma-se em Leis. Figuração completamente errada quanto ao local e cerimonial associado à colação do grau de bacharel. Do ponto de vista da etiqueta, nenhum candidato comparecia aos atos de gorro na cabeça. Quanto ao local, os graus de bacharel eram colados nas salas de aula das faculdades e os de licenciado na capela da UC e não na sala dos atos grandes. E nunca com os candidatos de pé.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Uma arqueologia dos hábitos de gala e librés grandes da UC (1905-1910)



 Doc. 1: hábito talar de lente. O traje dos membros do corpo docente era do mesmo corte e figurino para os lentes de todas as categorias e faculdades. Dividia-se em hábito talar ordinário e em hábito talar de gala. Para as grandes cerimónias, o tecido deveria ser a seda preta para a abatina e calções. A capa, de tipo mantéu grande, admitia tecidos próprios para inverno e para verão, rematando o colarinho com cordão de borlas. Nos contextos cerimoniais eram usadas insígnias dos graus, luvas, meias altas de seda e sapatos de pele de verniz com fivelas de prata. Nos finais da monarquia constitucional os lentes eclesiásticos continuavam a usar cabeção e volta e podiam optar por vestir o hábito talar romano que era considerado hábito académico supletivo nas universidades ibéricas e latinas. O hábito talar romano admitia as vestes das congregações regulares e as do clero secular, pelo que as cores em uso e os vivos eram autorizados.
Retrato do Dr. Luís da Costa e Almeida, decano da Fac. de Matemática da UC, com hábito talar e capelo, fotografado nos gerais das escolas. Não são visíveis a borla, as luvas e o anel. Abas dianteiras da capa repuxadas para a cintura e presas com as mãos, como era antigo costume.
Não existiam vestes nem insígnias distintivas para os membros da equipa reitoral, decanos das faculdades ou diretores de unidades integradas. Sendo os reitores lentes e graduados, usavam o hábito talar com borla solo. Sendo de nomeação governamental e externos à instituição, nas cerimónias apresentavam-se com  indumentária civil de gala ou com vestes corporativas associadas à sua profissão/títulos.
O hábito talar sem insígnias era usado para dar aulas teóricas e práticas. Os lentes podiam ir vestidos de casa ou fazer a muda de roupa num vestiário que existia na via latina, ao lado da sala dos atos grandes. Quando se encontravam devidamente ataviados, saiam do vestiário para os gerais com os bedeis na frente. As portas eram abertas e fechadas por contínuos de libré e as chamadas feitas pelos bedeis.

 Doc. 1.1: o reitor, representantes das faculdades e dos estudantes na apresentação de cumprimentos a D. Manuel II, Lisboa, 1908. Os decanos de Medicina, Matemática e Ciências Naturais com insígnias e hábito talar com calças compridas. Os representantes de Teologia e Direito com hábito talar de grande gala, em tecido de seda, com calções. O representante dos estudantes com hábito talar ordinário. O reitor, Alexandre Cabral, que era bacharel pela FD/UC, não pertencia ao corpo docente nem tinha insígnias do grau, apresenta-se com a farda de conselheiro de Estado.




Doc. 2: hábito talar de estudante, vulgo capa e batina. No final da monarquia constitucional, a norma estatutária e os estilos orais admitiam três modelos. O traje ordinário, que se vestia diariamente e com o qual se frequentavam as aulas e laboratórios, constituído por abatina de sarja ou lãzinha, capa, calças compridas, colete preto, camisa branca, gorro e sapatos pretos sem modelo definido. O traje de gala, em pano de seda, com botões forrados, volta e cabeção, meias calças de seda, calções e sapatos de verniz com fivela. O hábito romano, que podia ser trajado pelos alunos eclesiásticos. O traje de gala admitia capa de verão e capa de inverno, em tecidos de qualidade.
Em cima, duas fotografias do estudante e futuro político Ernesto Hintze Ribeiro, datadas de 1869 e de 1870 com hábito talar de gala, completado com pasta de luxo, usado desde as reformas de 1863 e até à legislação abolicionista de 1910 nos atos de formatura ou na colação do grau de bacharel.
Em baixo, alunos das Fac. de Teologia e de Direito com hábito de gala e pastas aguardam nos gerais a chamada para os atos. Fotografia de 1909 (?). Concluídos os atos (exames), os alunos aprovados colavam o grau de bacharel nas salas de aula no mesmo dia ou em data próxima. Chamados nominalmente, os alunos prestavam juramento, pediam o grau em latim, o mais antigo e/ou graduado recebia a borla na cabeça, subia à cátedra e proferia em nome do curso uma breve alocução. Não havia entrega de diplomas nem existiam os chamados anéis de curso. As cartas de curso eram posteriormente levantadas na secretaria, sem qualquer cerimonial.
Esta era a cerimónia oficial. À margem dela, os estudantes foram criando a récita de despedida, as baladas de despedida, o rasganço das vestes e os anéis de curso.

 Doc. 3: hábito de gala de secretário e mestre de cerimónias, que pelos estatutos deveria trajar de estudante. Até 1910 o mestre de cerimónias usou no dia a dia o traje de abatina com capa e calças compridas e nos dias de atos grandes abatina de seda preta com meias calças, calções, capa, luvas, cabeção e volta, sapatos pretos de verniz com fivela de prata, exibindo o bastão de prata.
Retrato de Manuel da Silva Gaio que se fez fotografar muito senhor de si na cadeira do reitor.

 Doc. 4: traje de mantéu ou de oficial maior, uma libré de corte usada com modificações pontuais desde o século XVI. No século XIX, sob o mantéu de bandas de cetim os funcionários vestiam casaca preta com punhos de renda e exibiam plastron à francesa (bacalhau). Em vez de espada era usado um punhal. No dia a dia, simples fato preto civil com mantéu.

 Doc. 5: traje de oficial maior adaptado aos bedeis das faculdades, cuja insígnia era a maça com roca e corrente. Este traje terá sido adotado no século XVIII, pois o que consta dos estatutos velhos é a loba e, comparativamente, nas irmandades e catedrais europeias os bedeis/maceiros usavam invariavelmente hábitos talares, embora no Vaticano tenha prevalecido o traje renascentista de meia abatina.

Doc. 6: o guarda-mor das escolas com libré de gala e vara.

Doc. 7: libré napoléónica de gala para archeiro, constituída por farda direita em lãzinha azul ferrete agaloada de prata: casaca e calções com bicórnio de pasta preta, tabalarte, espada e alabarda brunida.

Doc. 8: um aspeto do préstito académico em trânsito da Sé Nova para a UC com a presença de D. Manuel II (1908): archeiros em duas alas, oficiais maiores, charameleiros em traje civil, lentes de Filosofia Natural, etc.

COMMENTS:
 Boa noite.
Sou estudante do 1.º ano do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e estou prestes a adquirir o traje académico, sendo o mesmo o traje dito "nacional" (que se usa nas Universidades de Coimbra e Lisboa).
Porém, antes de o fazer, e vendo que o administrador deste blog é um entendido em assuntos relacionados com trajes talares, tanto novos como atuais (costumo ler, quando tenho disponibilidade, as publicações que realiza), gostaria de lhe perguntar se tem conhecimento da existência de algum estabelecimento comercial na cidade do Porto e/ou arredores que fabrique/venda trajes para a dita faculdade de "qualidade", e seguindo as normas que antigamente os alfaiates usavam no fabrico dos mesmos (quando estes eram feitos unicamente pela via artesanal). Pergunto isto pois gostaria de adquirir um "verdadeiro" traje (ou seja, o mais parecido possível com o "modelo conimbricense", desde que válido para usar na FLUP) e de "qualidade", não querendo, portanto, ser enganado na minha compra. Desde já agradeço a atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos,

João Durães 
(27.11.2016) 

Hoje em dia serão raríssimos os estabelecimentos de alfaiataria ou de modistas com conhecimentos especializados na tiragem de medidas, corte de moldes, acertos de medidas e acabamentos manufatureiros de hábitos talares. Em Coimbra ainda estão em atividade alguns alfaiates, mas este tipo de encomenda comporta demora na entrega e as convencionais visitas para escolha de tecidos, tiragem de medidas anatómicas e provas de acertos (ombros, cintura, etc.).
Para quem tem preocupações ligadas às boas práticas de alfaiataria e valoriza o trabalho artesanal, o pronto-a-vestir e as chamadas casas de fardas não oferecem garantias quanto a medidas, qualidade do corte e pormenores de acabamento.
Não conheço casas de fabrico artesanal no Porto e arredores. Julgo poder indicar uma casa existente na Praça da República, n.º 181. Pode também contatar o editor do blogue Porto Académico e pedir algum tipo de ajuda.
Levar fotografias ou desenhos pode facilitar e muito o diálogo com um alfaiate e ou modista.
AMN